A rádio na Guiné

No congresso de Berlim (1884-1885), a Guiné foi reconhecida como colónia portuguesa. Durante séculos, esteve sob administração de Cabo Verde, o que se refletiu, por exemplo, na criação do movimento de libertação PAIGC (Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde), fundado por Amílcar Cabral. A luta da guerrilha começou a 23 de janeiro de 1963.

Pela sua pequena dimensão e menores recursos naturais, a Guiné não teve a pujança da rádio de outras colónias portuguesas, em que triunfou o modelo de rádios clubes e comercial (Moçambique e Angola) e oficial (Angola), mas a rádio foi igualmente um meio privilegiado de contacto com as populações. A primeira estação de rádio surgiria em 1944 (EPGP, Emissora Provincial), e possuía um emissor de ondas curtas de 1 kW de potência. Alguns anos depois, em 1952, a estação de Bissau emitia diariamente música gravada em emissões num total de 90 minutos, com serviço noticioso em português e programas como Tribuna Desportiva, a cargo do locutor Soares Duarte.

O governador e comandante-chefe das tropas da colónia António Spínola (1968-1973) daria muito relevo à comunicação como elemento de contrassubversão, caso da estação de rádio, com emissões em português e línguas locais, os chamados PLN (Programas de Línguas Nativas), e do jornal A Voz da Guiné. Para ele, a guerra não era contra o comunismo, mas de ordem psicológica e contra as injustiças e a violência praticadas ao longo da História. Aqui, parecia seguir princípios culturais e filosóficos de pensadores como Benjamim Pinto Bull (1989), incluindo a aproximação a Leopold Senghor, líder do Senegal.

Com ação direta do general António Spínola, a estação local de Bissau passou de estatuto privado para a integração na Emissora Nacional (1969), com a designação de Emissora Oficial da Guiné, concretizada em 1972. Então, o emissor de Bissau, situado em Nhacra, possuía 100 kW de potência em ondas médias, um dos mais potentes da costa africana, a atingir centenas de quilómetros. Ao mesmo tempo, um pequeno emissor em FM servia Bissau e arredores. Se, em 1968, as onze horas diárias eram compostas por programas musicais (Onda Musical, Fim de Semana), quase todos enviados da Emissora Nacional (Lisboa) e horas produzidas em Bissau, além das duas horas semanais de discos pedidos, em 1971, operava entre as 8:00 e as 24:00, em ondas

médias e curtas e com publicidade nos programas.

Dentro do Emissor Regional da Guiné Portuguesa, destacou-se o Programa das Forças Armadas, conhecido pelo acrónimo PFA e pela designação popular de Pifas, espécie do programa americano Good Morning Vietname, com música e textos leves, e destinado aos militares e à população civil. Tinha três edições diárias (12:00-13:00, 18:30-19:30

e 23:00-00:00). João Paulo Diniz, Júlio Montenegro e Armando Carvalhêda foram três dos locutores profissionais que ali trabalharam, na altura militares em comissão de serviço.


Quando se estuda a rádio na Guiné-Portuguesa, tem-se também presente a propaganda e a contrapropaganda do lado dos guineenses. No distante ano de 1959, Belarmino Gomes animava um programa radiofónico a partir de Conakri, com informações da revolução na Guiné-Conakri e da próxima independência da Guiné. Em 1960, as emissões dominicais daquela estação, em português, crioulo e línguas guineenses, fazia apelos à luta pela independência. Desde 1960, China, Egito, Checoslováquia e União Soviética instalariam estações de rádio a emitir programas contra Portugal. As emissões de Rádio Libertação (PAIGC) começaram em julho de 1967, com programas em português, francês e crioulo, esta última muito falada pelos guineenses. A rádio era liderada por José Eduardo Araújo, e a sua mulher Amélia Araújo,

conhecida do lado português por Maria Turra, exortava os soldados portugueses a abandonarem o exército. O intervalo de música guineense e cabo-verdiana tinha canções de Valdemar Lopes da Silva, Abílio Duarte (1931-1996) e outros, gravados em fita magnética. Abílio Duarte seria também artista plástico e político, aqui nomeadamente como ministro dos negócios estrangeiros de Cabo Verde (1975-1981).


Autor: Rogério Santos, 2021.

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Texto original, com imagens, em https://radio.hypotheses.org/4034


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