Fernando Igrejas Caeiro

O programa radiofónico Perfil de um Artista, de Francisco Igrejas Caeiro, ia semanalmente para o ar, com entrevistas entre cerca de 30 e 50 minutos. Por vezes, a duração variaria, por cortes introduzidos pela fiscalização (censura).Francisco Igrejas Caeiro tinha um passado radialista, e político, desde que ingressara na Emissora Nacional em 1940. Ele fora despedido por ter assinado listas da oposição a pedir democracia no país após o final da Segunda Guerra Mundial (1948), e vira a sua vida profissional truncada, quando lhe foi proibido o programa de espetáculos itinerante e radiofónico Companheiros da Alegria, por ter dito em 1954 que Nehru era o maior líder mundial, no momento em que Portugal cortara relações diplomáticas com a Índia.

Em 1959, surgia um pedido formulado pelo diretor-interino da PIDE, tenente-coronel de cavalaria Homero de Oliveira Matos, a querer saber as personalidades que tinham falado no programa de Igrejas Caeiro em Rádio Clube Português. Responder-lhe-ia o fiscal do governo, tenente- coronel José Raposo Pessoa, após consulta ao diretor comercial da rádio, com uma lista exaustiva dos entrevistados.

Ora, quem entrevistou o radialista? Gente ligada à cultura (literatura, teatro e artes plásticas), algumas figuras políticas menos afetas ao Estado Novo, alguns jornalistas. Do conjunto, destaco: frei Diogo Crespo (fundador da revista Flama), Rolão Preto (antigo líder do movimento de extrema-direita dos camisas azuis), jornalista Artur Portela, Carolina Homem Cristo (filha do polémico jornalista aveirense Homem Cristo), cantor brasileiro Ivon Curi (então muito popular em Portugal), Francisco Relógio (artista plástico ligado ao neorrealismo), pintor Nikias Skapinakis, escritores Manuel da Fonseca, José Rodrigues Miguéis, Urbano Rodrigues, Alves Redol, Bernardo Santareno, Ilse Losa, Félix Bermudes (também presidente do Benfica, clube da simpatia do radialista), historiador Jaime Cortesão, José Augusto França, o advogado oposicionista Vasco da Gama Fernandes (depois Presidente da Assembleia da República), Maria Della Costa (atriz brasileira que estudara dramaturgia em Portugal e atou no teatro Capitólio por essa altura) e Gianfrancesco Guarnieri (ator italo-brasileiro que não consegui apurar se representou na mesma ocasião). As entrevistas a gente próxima do regime seriam para mostrar equidistância política, mas os detentores do poder político não se iludiam com esta posição.

Não encontro uma razão direta a motivar a intervenção da PIDE, mas, ao atentar em muitos dos nomes entrevistados no programa de rádio, percebe-se a desconfiança do regime. Numa entrevista, ele recordaria: “Fizemos o Perfil do Artista, trabalho que incomodou muito e acabou por ser proibido. O Perfil do Artista: tenho 300 entrevistas feitas, tudo que era intelectualidade de Portugal e do Brasil ou ligado às artes. Essa coleção foi um trabalho notável não meu, mas das pessoas que foram entrevistadas, algumas delas tinham quase o seu nome proibido. Julgo que foi pela primeira vez que se fizeram entrevistas de fundo”.

Em último, noto a linha de censura neste caso: diretor comercial da rádio, fiscal do governo junto da estação, SNI e polícia política. O arquivo da RTP conserva, disponível online, diversos programas Perfil do Artista (procurar em https://arquivos.rtp.pt/conteudos/). Recorte sobre a peça Gimba onde atuou Maria Della Costa: Diário de Lisboa, 21 de outubro de 1959.


Autor: Rogério Santos, 2021.

#fernandoigrejascaeiro #bibliografia

Texto original, com imagens, em https://radio.hypotheses.org/4100.

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