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O Projeto BiPE

Ao longo do século XX as emissões de rádio desempenharam um papel central na construção de identidades nacionais e imperiais, sobretudo porque a rádio, pela sua acessibilidade, era a principal fonte de notícias e de cultura popular. Mesmo antes de o conceito de globalização se generalizar já as nações imperialistas usavam a rádio para promover a criação de ‘comunidades imaginadas’ (Anderson, 1983) entre populações, espalhadas por vários continentes e enraizadas em diferentes contextos culturais. As emissões eram desenhadas com o objetivo de criar um sentimento de nação, reportando eventos cerimoniais e garantindo que, independentemente da distância que os separava do centro, todos os indivíduos teriam acesso ao mesmo conteúdo.


Embora o papel da rádio na promoção de um sentimento de nação tenha sido reconhecido por académicos que abordam a história da comunicação em diferentes impérios europeus (Kuitenbrouwer, 2016; Potter, 2012; Scales, 2013), este projeto vem adensar o conhecimento sobre esta temática, ao produzir uma história aprofundada da radiodifusão no império português, que pretende responder a duas perguntas de investigação: como é que a ditadura do Estado Novo usou a radiodifusão como ferramenta de construção da ideia de Império? De que modo Portugal utilizou a rádio de modo distinto quando comparado com as outras nações imperialistas? 


O caso do império português tem o potencial de expandir o nosso entendimento acerca do papel desempenhado pela rádio sob o jugo colonial por vários motivos. Além de ter sido o império mais duradouro da era moderna, contrariamente aos casos britânico, holandês e francês, a radiodifusão em Portugal desenvolveu-se sob um regime ditatorial que colocava o colonialismo no centro da sua ideologia. Acresce o facto de a governação colonial em África ter terminado depois de mais de 12 anos de guerra, na qual a rádio teve um papel muito concreto. Por último, ao contrário do que acontecia nos outros impérios da época, a radiodifusão portuguesa no ultramar era caracterizada pela coexistência de rádios estatais e comerciais.
A pesquisa vai centrar-se nas definições institucionais em que a rádio operava, nas oportunidades e limites das tecnologias, bem como nos programas (tanto nas notícias como no entretenimento) e nas audiências. Tal irá permitir reconstruir a forma como a ditadura usava a radiodifusão para a promoção de discursos nacionalistas entre os que viviam nas colónias e a população nativa dos territórios africanos governados por Portugal.


O projeto tem uma clara natureza interdisciplinar, ligando os estudos da comunicação à história. Responde aos apelos feitos por autores como Curran (2012) e Zelizer (2008), que instaram os historiadores e os investigadores dos media a envolverem-se numa produção de conhecimento mais informada acerca das continuidades e mudanças nas trocas de informação, de forma a permitir discussões mais sustentadas acerca do papel dos media no presente.